O SEGREDO DO GRÃO

FRANÇA, 2007

DIREÇÃO: ABDELLATIF KECHICHE

A França sempre foi um dos centros do cinema europeu e sua produção recente demonstra que nenhum outro país do velho continente anda fazendo cinema tão bem como eles. " O Segredo do Grão " chega para confirmar a atual fase como um dos melhores do ano de 2007.

O diretor tunisiano nos apresenta um mosaico familiar reunido em torno da hora sagrada da refeição. O filme tece sobre a vida dos imigrantes de origem árabe na França e sua difícil rotina para serem aceitos em um país estranho. Um velho pai de família representa o sofrimento de toda uma comunidade. Após dedicar sua vida pela empresa em que trabalha, é despedido de maneira humilhante. Separado, encontra-se desolado por não poder ajudar e ainda depender dos familiares e da ex-mulher. Familiares estes que mesmo após sua saída de casa, nunca deixaram de lhe dar carinho e atenção.

O grande protagonista é o delicioso cuscuz que dá nome ao filme. Em torno de seu preparo e degustação, acontecem os diálogos filmados na íntegra pelo diretor. Pessoas falam mal uma das outras, fofocam, brigam e se amam. O povo nativo, vide franceses, são apresentados como os vilões da história, destilando todo seu preconceito para com os estrangeiros. Existe ainda o preconceito entre os próprios imigrantes, mas de origem distintas, como é o caso da esposa russa de um dos filhos do velho que luta para ser respeitada dentro desta família.

Este velho homem tem o sonho de abrir um restaurante em um barco abandonado e com a ajuda de sua família, da antiga ( ex-mulher inclusa) e da nova, por alguns momentos ele sente-se realizado. Mas a realidade é dura e o diretor não tem dó alguma em retratá-la, fazendo com o que o final (uma clara referência ao filme " Ladrões de Bicicleta ") deste homem não seja dos mais felizes.

Apesar dos 151 minutos, o filme corre fácil e nem percebe-se o tempo. O roteiro é excelente. Os atores em sua grande maioria amadores, fazem com que o filme chegue próximo da perfeição com seus diálogos longos, verdadeiros e muitas vezes improvisados. A bela atriz que faz o papel da enteada do velho, rouba a cena com uma interpretação que lhe rendeu o prêmio de atriz revelação em Veneza. A direção é maravilhosa e a última meia hora do filme é de tirar o folêgo, com direito a dança do ventre mais emblemática de todos os tempos embalada por uma música hipnotizante e uma conclusão forte, seca e vibrante, que faz com que você não queira sair da poltrona apesar de já estar sentado a quase 3 horas.

O preconceito constante no ar, a inveja, a união e a superação. A glória e a queda. Tudo isso apresentado da maneira mais verdadeira possível, fazem com que " O Segredo do Grão " entre na lista dos grandes filmes do último ano. Talvez você ache que o final seja um pouco forçado, assim como eu achei na hora, mas algum tempo depois conclui que era aquilo mesmo que Abdellatif deveria ter feito. Para a grande maioria dos imigrantes que vivem nos subúrbios da Europa atual, o sonho não dura mais de que uma hora. Cinema de gente grande!

Roger T.

           

 

WALL-E

EUA, 2008

DIREÇÃO: ANDREW STANTON

Sou fã de carteirinha de animações. Desde as clássicas, com traços rústicos até as mais modernas. E eu sei que muita gente na minha idade também é apaixonada por estes desenhos que mantém viva dentro de nós, a eterna criança.

O melhor negócio que a Disney fez nos últimos tempos foi adquirir a Pixar. Amo as clássicas animações da Disney, mas nos últimos tempos, elas vinham perdendo audiência para as animações mais modernas realizadas com nova tecnologia. A Pixar por sua vez, já nasceu estrela. Impossível não se apaixonar por seus personagens. Desde o maravilhoso " Toy Story ", passando por " Procurando Nemo" e chegando ao mais recente " Wall-E ", na minha humilde opinião, todos seus trabalhos são excelentes e inovadores.

" Wall-E " é um desenho lúdico, romântico mesmo, mas com uma crítica muito direta. Além de divertir, ele instrui, e este casamento para uma animação, não é muito comum. " Wall-E " é o nome do robôzinho protagonista da trama. Sua função é limpar todo o lixo da Terra, função esta que ele começou a exercer à 700 anos atrás, quando a Terra ainda era habitada. Passado tanto tempo, ele ainda faz seu trabalho e vive só na companhia de uma simpática baratinha. Certo dia, a Terra recebe a visita de uma robô super moderna, que tem a função de procurar rastros de vida. Como já disse, a Terra encontra-se inabitável à séculos. Ocorre então o grande encontro dos dois robôs, o moderno e o obsoleto, que proporciona uma história de amor das mais memoráveis da animação, isso mesmo, do nível de " A Dama e o Vagabundo ", um clássico Disney.

A primeira parte do filme praticamente não tem diálogos e é incrível como os animadores da Pixar conseguem colocar tamanha expressão em um personagem robô que nem boca tem!!! A segunda parte, quando aparecem os humanos, é uma tremenda crítica a sociedade de consumo atual e uma profecia muito cruel do que pode vir a acontecer com a humanidade. Cruel, mas totalmente consciente. Como a vida na Terra não é possível, o filme mostra os humanos vivendo enclausurados em uma espécie de eterno cruzeiro espacial, onde todos são extremamente obesos e fazem tudo com o auxílio de robôs. Estes humanos não sabem o que significa amor, sociabilidade, e tampouco imaginam que podem andar e fazer as coisas por conta própria. Transformou-se em um sociedade vazia e sem alma. Alma esta, que " Wall-E " tem de sobra. Como assim? Isso mesmo, além da ácida crítica aos tempos modernos, a animação faz claras homenagens a clássicos da ficção científica como " 2001, O Ano em que Faremos Contato" e " Blade Runner ". As máquinas no poder e a habilidade de sentir emoção. Homenagem justissíma a estes clássicos proféticos.

Enfim, além de emocionar, " Wall-E " ainda instrui e alerta. Um dos melhores trabalhos da Pixar com certeza. Ainda dá tempo de deixar um planeta melhor para nossos herdeiros. Pequenas ações geram grandes resultados. Você já pensou o que você pode fazer para ajudar seu planeta? Evitar imprimir coisas desnecessárias já é um belo ato. Desligar a torneira enquanto escova os dentes ou levar sua sacolinha para as compras. São pequenos atos que farão você se sentir melhor. O lixo é a desgraça do mundo. Faça sua parte. O planeta agradece. Não é discurso de ecochato, é uma realidade que veio para ficar. Wall-E e Eva ficarão muito felizes se pudermos poupá-los do trabalho de limpar o Universo.

Roger T.

       

O CRÍTICO SOU EU COMEMORA 3 ANOS!!!

Pois é caros leitores. Nosso Blog comemorou ontem mais um dia de vida. Isso mesmo, 3 anos de vida. Para quem nos acompanha sabe que o Blog começou apenas com resenhas de cinema, e no último ano resolvi agregar outras formas de manifestações artísticas. Teatro, música e exposições ganharam seu merecido espaço no " Crítico ", afinal, a sétima arte também é um apanhado de tudo isso. Nosso maior foco ainda é e sempre será o Cinema, mas no " Crítico " há espaço para todos. O Blog começou minúsculo e hoje já posso dizer que ele é pequeno rsss. O que importa não é a quantidade e sim a qualidade de nossos leitores, e isso, eu sei que temos de sobra. Vamos crescendo aos poucos, mas com qualidade, afinal, podemos andar devagar, mas nunca para trás! O que importa, é a paixão pela sétima arte, e isso, nós temos de sobra. Quando digo nós, refiro-me a vocês caros leitores. Muito obrigado por proporcionar mais um ano para este humilde, mas apaixonado Blog. Espero alcançar mais 3 anos tendo vocês sempre ao nosso lado. Viva o Cinema! Viva a arte! Te vejo na sala escura. " O Crítico Sou Eu ", Cinema por quem vê!

Roger T.

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA

EUA/FRANÇA, 2007

DIREÇÃO: JULIAN SCHNABEL

Diretor de " Basquiat " e " Antes que Anoiteça ", Julian Schnabel primeiramente recusou a direção de " O Escafandro e a Borboleta ". Não conseguia vislumbrar como poderia contar a história real de Jean-Dominique Bauby, que foi editor da revista " Elle " e sofreu um acidente cérebro-vascular aos 42 anos que paralisou totalmente seu corpo com excessão do olho esquerdo.

Tempos depois Julian resolveu encarar o desafio para deleite dos amantes da Sétima Arte. Desafio que lhe proporcionou o prêmio de melhor direção em Cannes.

Com a recusa de Johnny Depp para o papel principal, coube ao ótimo Mathieu Amalric, que está em cartaz também em " A Questão Humana ", assumir o posto de protagonista. Se fosse a primeira opção não teria sido tão bom. Mathieu assumiu o personagem com imponência. Mas você deve estar pensando: - Como a interpretação pode ser boa tendo um personagem estático preso à uma cadeira de rodas que não se mexe e tampouco fala? Se você conferir a convicção da interpretação de Mathieu entenderá meus elogios. Somente com algumas piscadas e um olho ele dá show. O elenco de apoio também é muito bom e conta com as coadjuvantes mais belas do cinema francês. Desde sua ex-mulher até a fisioterapeuta, passando pela última namorada e a fonoterapeuta, elas fazem com que a estada de Jean-Do no hospital esteja mais próxima do céu. Aliás, a presença de belas mulheres à sua volta, servem para transmitir ao público a agonia do personagem, que aos 42 anos, vê-se preso dentro de seu próprio corpo tendo que imaginar o prazer do toque feminino.

Antes do acidente Jean havia fechado um contrato para escrever um livro. Livro este que foi escrito com a ajuda da mulher mais paciente do mundo através do sistema de comunicação desenvolvido pela fonoterapeuta do hospital. Jean ditou todo o livro apenas piscando seu olho esquerdo. O livro que deu origem ao filme.

Apesar da dramaticidade do tema, o filme não explora este lado que poderia dar um bela novela mexicana. Durante várias passagens sentia as lágrimas nascerem, mas elas não chegavam a cair. Julian soube dosar muito bem a delicadeza do tema em película e transformou a história de Jean em poesia com uma linda fotografia. A trilha vai de Tom Waits à clássicos da música francesa passando por U2 e a direção dispensa comentários.

Escafandro é aquela roupa de mergulho antiga que mais parece uma armadura. Ela simboliza o corpo de Jean-Do. A borboleta remete a sua imaginação, que é a única forma de sair de seu enclausuramento. Guardada as devidas proporções, Escafandro lembra um pouco " Mar Adentro", o filme onde Javier Bardem interpreta um personagem que embora tenha o corpo todo paralisado, não perdeu a fala. As viagens proporcionadas pela imaginação de ambos os personagens são semelhantes, e em Escafandro, a imaginação de Jean-Do nos proporciona uma experiência audiovisual única. Destaque para os minutos iniciais do filme onde a câmera subjetiva nos coloca dentro do personagem.

Você anda reclamando à toa da vida? Então vá conhecer a história de Jean-Do. Você vai ver que sua vida não é tão ruim assim. Pelo contrário!

Roger T.

   

A FESTA DE ABIGAIU - TEATRO

 

De: Mike Leigh
Direção: Mauro Baptista Vedia
Com: Ester Laccava, Ana Andreatta, Eduardo Estrela, Fernanda Couto e Marcos Cesana

Escrita por Mike Leigh, diretor de " Segredos e Mentiras " e " Vera Drake ", " A Festa de Abigaiu " foi a vencedora do 10° Festival da Cultura Inglesa na categoria teatro adulto. O texto de 1970 foca nas mudanças sociais da Londres daquela década que afetaram principalmente a classe média; e critica de forma ácida o processo de americanização que começava a tomar a terra de Shakespeare.

A história se passa na casa de um casal que recebe a visita de alguns vizinhos(as), entre elas, a mãe de Abigaiu, a filha punk adolescente que dá nome à peça. Os cinco personagens parecem terem saído de um circo freak. Um mais bizarro que o outro e todos muito distintos. Tem o pseudo-intelectual, bom moço e corretor de imóveis que idolatra seu emprego estável das 10h às 18h. O casal psicopata que vai se soltando conforme a ingestão de álcool progride e por aí vai. Esta diversidade de personagens proporciona uma comédia deliciosa com uma pontinha de crítica as futilidades e valores duvidosos que a terra do Tio Sam começava a disseminar mundo afora.

De início é complicado aceitar a interpretação extremamente caricata de todos os personagens. Como eu já disse, eles realmente são bizarros. Mas com o passar do tempo, o trabalho dos atores vai se destacando e a peça fica extremamente fácil de ser acompanhada.

Um elenco extremamente seguro e afiado, com destaque para o excelente Marcos Cesana, que interpretou o garçom do filme " Chega de Saudade " e atualmente está na televisão na inovadora série " 9 MM ", primeira produção da Fox em terras tupiniquins. Ainda vamos ouvir muito seu nome. Um texto com pitadas de humor negro deliciosamente ambientado na Londres de 1970 sob a perspectiva da classe média britânica. Consequentemente a trilha vai muito bem obrigado com intérpretes que vão de Tom Jones à The Clash. Um cenário super simples mas muito bem feito e perfeccionista nos detalhes, como os sofás de couro e a vitrola. Enfim, um excelente entretenimento com ótimos atores e um texto inteligente.

A temporada no Procópio Ferreira já acabou, mas para seu deleite, a peça voltará em Agosto no Teatro Augusta. Não perca está chance de dar boas risadas, pois já dizia o palhaço filósofo dono de minhas manhãs na infância: - Rir, sempre rir, é o melhor que temos a fazer.

Roger T.

       

O SONHO DE CASSANDRA

 

EUA/INGLATERRA/FRANÇA, 2007

DIREÇÃO: WOODY ALLEN

Em termos de produção, os ares europeus vem fazendo muito bem à Woody Allen, afinal, ele já esta filmando seu 4° filme no velho continente  em um periodo de menos de 2 anos. Em compensação, a produção intensa não reflete na qualidade dos filmes.

Neste mais recente trabalho, Allen volta ao thriller psicológico iniciado com o ótimo “ Match Point “. “ Sonho de Cassandra “ conta a história de 2 irmãos interpretados por Ewan Macgregor e Collin Farrel, este último inclusive está muito bem no papel de irmão pertubado. Ponto para Allen que conseguiu mostrar um lado de Farrel que eu desconhecia, o de excelente ator. Confesso que não conheço muito seu trabalho, mas os poucos que conferi, foram no mínimo lamentáveis.

Dois irmãos no meio de seus 30 e poucos anos que não conseguiram realizar muita coisa na vida. Se o filme fosse americano, seriam os famosos “ losers “. Eles tem um tio muito bem sucedido, mas que para chegar ao topo pisou em muita gente e consequentemente, já dizia o ditado popular: o q vc planta , vc colhe. Este tio agora está em apuros e apela para os sobrinhos lhe ajudarem. Uma troca de favores? Afinal, qual o preço do sucesso? Esta é a grande chance dos dois de conseguirem algo de concreto para suas vidas e futuro. Ewan é o irmão racional e frio, que quer subir na vida a qualquer custo e impressionar sua nova namoradinha. Farrel já representa a parte da emoção, o cara sensível que não consegue dormir com peso na consciência. E assim, Allen vai tecendo sua trama. A tensão vai aumentando progressivamente até o desfecho final.

Comentou-se muito sobre o famoso final deste filme e quer saber: Eu sei que vc quer, mas não sou estraga prazer. A mim não agradou nem um pouco, e pela reação das poucas pessoas que estavam na sessão, parece que ninguém saiu muito satisfeito. Mas cinema é isso né, impossível agradar a todos. Mas desta vez Allen menosprezou seus fiéis seguidores. Achei o final previsível e fraco, além de ser pouquissimo trabalhado. Apesar de ser filmado em Londres, Allen quis um final francês para Cassandra e assim o fez. Somente conferindo para entender, mas quem é familiarizado com algumas das bizarrices do cinema francês, já imagina o que quero dizer. Não estou generalizando, amo o cinema francês, mas tem coisas que até mesmo o mais paciente e cabeça dos cinéfilos não consegue captar.

Para mim, o único mérito de Allen neste filme está na sua direção para com Colin Farrell, que realmente me surpreendeu como ator. Muito bom. Agora o resto ... Os diálogos que sempre caracterizaram a filmografia de Allen, são fracos, o roteiro idem, os atores estão bem, mas ... falta muito para ser um bom filme.

Ainda prefiro o Allen de “ Bananas “, “ Manhattan “ e “ Noivo neurotico, Noiva nervosa “. “ Match Point” é um excelente thriller, mas em “ Sonho de Cassandra “ , ele não contou com a mesma inspiração.

Roger T.

      

 
PRIMEIRO AMOR - TEATRO

Texto: Samuel Beckett
Interpretação: Marat Descartes (Prêmio Shell de Melhor Ator)
Direção: Georgette Fadel

Escrito por Samuel Beckett em 1945, o texto é encenado na íntegra, sem adaptações. Um texto que conta a história do primeiro amor de um homem que encontra-se de mal com a sociedade e o mundo. O humor cáustico de Beckett está bastante presente no texto. Pode – se dizer que o personagem é literalmente um escroto, um ser totalmente voltado para seu umbigo e que não consegue relacionar-se com nada nem ninguém. Ele sente-se abandonado e excluído, e este sentimento proporciona ao espectador uma atuação majestosa do ótimo Marat Descartes, de quem tornei-me fã, ao assitir a primeira montagem de “Aldeotas “, onde ele fazia o amigo de Gero Camilo.

O cenário resume-se a um banco, destes de praça. O jogo de luz é muito interessante e faz com que o espectador vá entrando aos poucos no universo de Beckett. O texto é triste e ácido ao mesmo tempo, desperta vários sentimentos como nojo, piedade por seu sofrimento e compaixão. A interpretação é de tirar o chapéu e o monólogo que poderia ser cansativo, passa despercebido. As várias facetas do amor, em um texto cruel, mas necessário. Marat levou o prêmio Shell por sua interpretação neste trabalho. Enfim, um programa imperdível que só nos faz engrandecer. E como já diria Beckett: - O amor não se encomenda ...

Roger T.

 
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