UNIVERSO UMBIGO

 

Com: CIA Fractais e Karnak

Roteiro e direção: Marcelo Castro e André Abujanra

Assim que tomei conhecimento da nova empreitada do Karnak fiquei excitadíssimo e sabia que tratava-se de algo impedível para quem vem acompanhando o grupo no decorrer dos últimos ... 15 anos pelo menos? Quer dizer, antes de ser fã do Karnak, já acompanhava o trabalho de André com o Maurício Pereira no saudoso "Mulheres Negras". Sem contar seu pai, o velho Abu que também admiro bastante, ou seja, o talento está no dna da família.

Se fosse somente um show do Karnak já valeria a pena conferir, agora, Karnak ilustrado pelo grupo Fractais, parecia algo perfeito demais. A música universal do Karnak combina muito com o universo do circo, eles mesmos, os integrantes, são todos palhaços. O André quando encarna seus personagens falando uma língua que parece la da Sbórnia é comédia pura. O baixinho e toca muito Hugo Hori, o cabelinho ... São todos seres humanos que beiram a genialidade.

Se o show deles não fosse tão bom, confesso que sairia desapontado. A participação do Fractais é totalmente desnecessária, quer dizer, não acrescenta nada. Os números circenses são básicos demais. As coreografias ... bem, se eles fossem dançarinos não estariam no circo não é mesmo e as poucas partes em que se exige um mínimo de interpretação dramática, também são bem fraquinhos.

A interatividade com o público também está presente, aliás, parece que é moda fazer o povo pagar mico. E lá vai todo mundo para o palco dançar e sacolejar.
Mas quer saber, o Karnak por si só é tão bom que você nem se preocupa com o resto. Adoro circo, mas eu acho que eles perderam uma ótima oportunidade de fazer algo mais elaborado para acompanhar a genialidade da trupe de André.

Vale muito a pena pelo Karnak. A novidade Fractais no espetáculo, faz com que não seja somente um show de música e consequentemente, a platéia tenha que ficar sentada, afinal, tudo acontece no Teatro, mas na minha modesta opinião, seria muito melhor deixar o circo de lado e realizar um show nos moldes tradicionais onde poderíamos dançar à vontade, uma vez que a tentativa de acrescentar estímulos visuais por parte dos Fractais não funcionou muito bem. Mesmo assim vale muito a pena. Vida longa ao Karnak e lembre-se: - "ALMA NÃO TEM COR".

Roger T.

       

FUERZABRUTA

 

Concepção: Diqui James e Gaby Kerpel

Direção: Diqui James

Direção Musical: Gaby Perkel

Dos mesmos criadores do sensacional "De La Guarda", aterrisa em Sampa City "Fuerzabruta", a mais nova viagem de nossos hermanos argentinos que sabem entreter a platéia como ninguém.

Pode ter certeza de que tudo o que você presenciará será inédito. Seus espetáculos mexem com todos os sentidos do ser humano. É realmente uma loucuuuura jejeje (risada virtual em espanhol).

A começar pela excelente estrutura montada no Parque Villa Lobos, que aliás diga-se de passagem, já mostrou-se um excelente espaço para estes eventos. O local é isolado, enorme e ainda conta com um belo estacionamento gratuito. A tenda armada pela trupe argentina conta com 3 lounges ( 1 ao ar livre) e 1 bar central, além dos restaurantes "Piolá" e "Shimo" para os esfomeados. Nota 10 para a produça!

O espetáculo dura cerca de 70 minutos e durante todo este tempo a platéia permanece em pé e andando de um lado para o outro. Isso mesmo, o trabalho sensorial do grupo é apresentado logo de início. Você nunca sabe de onde virá o próximo cenário e atração. Será do alto? Da frente? Monitores indicam o caminho a ser percorrido.

O show começa com um rapaz correndo frenéticamente em um tipo de esteira contra todas as interpéries produzidas artificialmente como vento, chuva e sujeira. Está instalado o caos e é isso que os hermanos querem proporcionar a platéia. Um espetáculo diferente e orgânico que desperte todos os sentidos do ser humano. O show é uma balada. Em dado momento os integrantes da trupe descem para interagir com a platéia e fazem todos dançar e pular loucamente com um DJ borrifando água para quem quiser dar uma refrescada. Aliás, dizem que você pode sair sujo e molhado; besteira. Sujo, quer dizer, com alguns pedaços de isopor grudados pelo corpo e o banho é totalmente opcional. Para quem estiver com calor ou dominado pelo espírito do espetáculo pode se enfiar embaixo da cachoeira que deságua em certo momento do show.

A parte mais surreal é quando uma piscina desce até sua cabeça e nela as moças da trupe fazem coreografias sob a água. LOUCO! Você pode tocar o cenário (com cuidado é claro) e interagir com as performers que dão saltos incríveis.

É difícil transmitir os sentimentos provocados por "Fuerzabruta", você tem que conferir com seus próprios sentidos. Mas tenha certeza de uma coisa: É muito bom e diferente de tudo que você já presenciou, a não ser que você tenha visto "De La Guarda". Impossível alguém não curtir e não se divertir, quer dizer, nada é impossível né, mas garanto que pelo menos 90% das pessoas saem pedindo bis. Uma experiência sensorial indescritiva. Divertidissíma e maravilhosa. Você sai de alma lavada. Literalmente se esta for a sua vontade. DUCARAIO!!!

Roger T.

        

ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO

BRASIL, 2008

DIREÇÃO: JOSÉ MOJICA MARINS

Na minha época de faculdade, lá pelos idos de 2000, realizei um trabalho sobre o Cinema Trash, nacional e internacional, e claro, Zé do Caixão não poderia ficar de fora. Vi todos seus filmes na época, além de visitá-lo em seu QG no Ipiranga, onde fui muito bem recebido. O homem é uma lenda e como acontece bastante com alguns de nossos talentos, muito mais reconhecido no exterior do que em seu próprio país. Lá fora ele é o famoso "Coffin Joe", com direito a caixa com sua filmografia completa em forma de ... caixão é claro.

Após 40 anos!!!!, pois é, o Cinema no Brasil funciona assim, Zé do Caixão consegue concluir sua trilogia sobre a procura da mulher que irá gerar o seu filho perfeito. Desta vez Zé teve toda a estrutura disponível para realizar um Trash Chic. Produzido pela "Olhos de Cão" e pelos extremamente profissionais irmãos Gullane, Zé do Caixão teve a sua disposição o que há de melhor e mais moderno atualmente para encerrar sua triologia.

O roteiro é ótimo para o gênero. A produção impecável. Os atores principais estão excelentes. As participações de Jece Valadão e Adriano Stuart são impagáveis, afinal, um bom trash necessariamente está na fronteira com a comédia, o famoso "TERRIR". A participação de Milhem Cortaz como o padre que o persegue também é muito boa, aliás, impossível não se lembrar do padre do chocho " Código Da Vinci" que se auto-flagelava, guardada as devidas proporções claro, pois o padre de Milhem é muito melhor. Junte a tudo isso, belas mulheres que rodeiam o homem da cartola preta, seus servos super caricatos, muito sangue cenográfico e uma produção de arte impecável. Pra completar, José Mojica após 40 anos, é um ator muito melhor e nem seus erros de português aparecem na película. Impossível não deleitar-se com seus olhos esbugalhados ao ter visões do além. Muito Bom.

A última coisa que você sentirá ao ver este filme é medo. Talvez você sinta um pouco de nojo, mas no geral, o filme é muito agrádável de se acompanhar, acredite. Eu sai do cinema imaginando como uma série inspirada nas sandices de Zé do Caixão faria sucesso. Imagino um programa, de uma hora de duração, para passar toda sexta à meia-noite. O universo deste homem é infinito. Seus personagens excelentes. As ciganas, o padre louco, os servos, os policiais, o zelador do Limbo na pele do outro doido José Celso Martinez Corrêa, as lindas mulheres e sangue, muito sangue. Para complementar, uma trilha sonora com "Sepultura", "Rob Zombie", "Ozzy", putz, se eu fosse adolescente iria adorar ... Pra falar a verdade, mesmo com 30 eu adoraria hahaha. Gastaram dinheiro para fazer aquela produção tosca da Tiazinha heroína na Band e nossos verdadeiros mestres, à deriva, esperando uma oportunidade.

O cinema de Zé do Caixão pode não ser cabeça, tampouco requintado, mas é feito com paixão e fibra!!! Aliás, esse homem é um guerreiro. Nunca esperou ajuda de ninguém para fazer seus filmes. Conseguir terminar sua trilogia 40 anos após o último filme é um ato de heroísmo. Ele passou por cima de todas as barreiras ridículas que nossa sociedade tupiniquim impõe. Primeiro, ele faz cinema. Segundo, sempre foi taxado de brega e louco. Terceiro, já passou dos 70. Para uma sociedade onde pessoas de 40, 50 são consideradas velhas para produzirem, Zé do Caixão mostrou mais uma vez porque é tão celebrado no exterior e mandou uma bela banana para os críticos que se acham acima do bem e do mal neste país.

O filme diverte e entretêm. Tem uma produção excepcional, produção esta que Mojica nunca teve em suas mãos e ainda foi convidado para ser exibido no "Festival de Veneza", onde foi muito bem recebido. Pasmem pequenos burgueses intelectuais filosóficos. O homem da Cartola, humilde, que fala "púbrico", chegou lá e deixou sua marca para sempre no nosso cinema, queiram vocês ... ou não. Vida longa à Zé do Caixão, este sim, um verdadeiro apaixonado pelo que faz, um guerreiro do cinema nacional!!!

Roger T.

             

 

NOME PRÓPRIO

BRASIL, 2007

DIREÇÃO: MURILO SALLES

Estava muito curioso para conferir este filme, mais pela atriz que admiro desde seu trabalho em " A Ostra e o Vento " do que pelo tema em si.

"Nome Próprio" conta a história de Camila, uma jovem caótica que vêm para São Paulo em busca de seus sonhos como tantos outros emigrantes. Blogueira ativa, ela tem como principal meta escrever um livro que é adiado a todo momento. No entanto, seu Blog é atualizado constantemente divagando sobre seu dia-a-dia, suas paixões frustradas, traições, crenças e a paixão pela poesia. Enfim, um tema mais que atual em tempos de web 2.0 e a exposição deliberada proporcionada pela Internet.

O filme que se passa em São Paulo, nos apresenta a história daquela que poderia muito bem ser sua melhor amiga. Todos conhecemos ou já nos deparamos com alguma "Camila", quero dizer, uma personagem muito comum na nossa paulicéia desvairada. É muito legal ver sua cidade natal na tela, principalmente quando suas locações fazem parte de seu cotidiano.

Recentemente estive visitando alguns apartamentos na região oeste, mais precisamente em Perdizes e pude conferir vários similares as  moradias de Camila. Muitos de meus amigos moram na região e claramente a Camila poderia ser nossa vizinha, além de frequentar lugares em comum. O velho "Filial", bar na Vila Madalena aparece no filme. O "Milo Garage", a " Casa Belfiore", ou o popular "CB" se preferir também estão lá. Ela aparece até curtindo, mais ou menos, um jogo do verdão em pleno "Palestra Itália". Poxa, ela tá na minha quebrada rs.

Esta proximidade com o público causa certa simpatia, mas o filme não decola. Ponto para sua experimentação, o resgate da poesia pelo Blog da personagem e o retrato de uma geração constantemente on-line. As referência literárias não poderiam faltar em tratando-se de uma personagem aspirante à escritora. E dá-lhe Leminski e Bukowski.

Camila é auto-destruidora por natureza. Ela não consegue ser feliz 100%. Quando tudo parece bem, ela apronta ou aprontam para ela. Vive tomando anfetamina pra ficar ligadona, aliás, sua dieta baseia-se em anfetamina, cerveja e cigarro. Muitos cigarros. Ela procura o caos e quando não procura, o atrai. Se apaixona pelos caras errados e possue uma enorme vocação para o sofrimento, o que já é meio caminho andado para se dar bem no mundo das letras.

Conheci algumas Camilas na minha vida, sem dever nada à personagem de Leandra Leal. Na verdade, elas são muito carentes. Querem amar e serem amadas, um relacionamento estável, mas basta uma faísca para pegarem fogo e colocarem tudo à perder. Vivem por impulso e só medem as consequências depois que a cagada está feita. São daquelas pessoas que vivem minuto após minuto, não que eu descorde. Para mim, o que ficou para trás não volta e eu quero mais é viver meu presente, sem vislumbrar o futuro, mas tudo tem sua medida certa e cabe a você, designar a dose. Camila é 8 80, e assim vai tocando sua vida caótica, o que com certeza, lhe renderá um belo livro. Muito melhor que o roteiro deste filme.

Como já esperava, o filme é 100% Leandra Leal e este lhe proporcionou a oportunidade de explorar todo seu talento dramático. Por ela, vale muito. Pelo filme em si ... Acho que não. Mesmo porque, essa história, muitos de nós já presenciamos pessoalmente, seja através de uma amiga ou de uma namorada. Infelizmente, nada de novo em um filme que aborda um universo tão recente. Mas vale para conferir uma atriz no seu ápice interpretativo, mesmo que o roteiro não colabore.

Roger T.

           

 

 

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